Blog

Crianças, jovens, traumas e ansiedade no mundo moderno: Como lidar

De acordo com o ABC News, o Gun Violence Archive registrou 15 tiroteios em massa com resultados de morte neste ano de 2018 nos EUA. O mais recente ocorrido no Sul da Flórida, aonde a comunidade brasileira entrou em choque presenciando não somente cenas marcantes e traumáticas, como também a experiência em acompanhar a perda de jovens tão próximos dos estudantes brasileiros.


Como tratar este assunto com a nossa comunidade? Uma ameaça que já tornou-se parte da realidade americana, ainda é algo novo e assustador para os milhares de brasileiros que vivem na região, especialmente aqueles que chegaram recentemente.


Este artigo não pretende abordar os motivos que levam o atirador a realizar tamanha atrocidade. Vários profissionais na área criminal, médica, psicológica, assistência social, psiquiátrica, saúde mental entre outros concordam que uma série de combinações levam um assassino a premeditar uma ação terrível como esta.


O propósito deste artigo é alertar e orientar pais e famílias com relação a exposição das crianças e adolescentes à situações de terror como a recém ocorrida na Marjory Stoneman Douglas High School e como orientá-los de forma que o medo, a ansiedade e pânico não os impeçam de viver uma vida normal e saudável.


 

  • Text Hover
  • Text Hover

É importante os pais compreenderem que quanto mais as crianças e adolescentes forem expostos a situação de violência e traumas, mais suscetíveis ao Transtorno de Estresse Pós Traumático (conhecido nos EUA como PTSD).


Neste caso, é da responsabilidade dos pais, em primeira instância, em tomar as medidas necessárias para ajudar crianças e adolescentes em como lidar com isso, vivendo num país aonde o terror já é uma rotina como  mencionado no início.


Com a globalização das notícias, as mídias sociais que bombardeiam telefones, I-pads e computadores, as crianças e adolescentes são muito mais suscetíveis ao medo e ansiedade por não saberem filtrar as informações, avaliá-las e reterem o necessário para as devidas precauções. É aí que se gera a ansiedade.


Ansiedade e medo caminham juntos. De acordo com Gregory Jantz, um evento traumático que uma pessoa vivencia pode se vincular à psique, criando um buraco de ansiedade aonde a lógica e razão desaparecem” (1). Como consequência, pode-se desenvolver transtornos psicológicos como a síndrome pânico, por exemplo. A questão é como administrar a ansiedade em situações trágicas como esta que acabamos de passar?


Em primeiro lugar, devemos prestar atenção nas falsas generalizações. O que aconteceu na Marjory Stoneman Dougleas High School, não necessariamente irá acontecer na Coconut Creek High ou Coral Gables High e assim por diante. Esta é a forma em que a ansiedade trabalha. Podemos até dizer que as escolas em geral estão vulneráveis à situações trágicas como esta, mas o que aconteceu ontem, não temos a certeza de que acontecerá amanhã. Não temos controle do nosso futuro .
Provérbios 27:1 diz: Não presumas do dia de amanhã, porque não sabes o que ele trará. (acf).. O excesso de preocupação dos pais são transferidos às crianças podendo gerar mais insegurança e medo. Os adultos são modelos e inspirações para as crianças e a postura dos pais é essencial para promover tal tranquilidade.


A ansiedade baseia-se em traumas e experiências passadas e projetadas no futuro, obscurecendo a visão do presente. Novamente, não podemos mudar o passado e nem prever o futuro, portanto, pais, vivam o melhor do presente momento com seus filhos e encorajem eles a fazerem o mesmo.


Outro aspecto importante que os adultos precisam entender e se posicionar é com relação a atitude positiva ou negativa mediantes às batalhas que enfrentamos no dia-a-dia. A ansiedade e medo estão sempre relacionados as aspectos negativos. Precisamos dar um impulso adicional aos aspectos positivos para mantê-los na vanguarda de nossas mentes.


A ansiedade ou o excesso de preocupação desprotege nossas emoções, segundo Augusto Cury, e, portanto sentimentos de derrota, desesperança e perdas desertificam seu dia, a semana, o mês, e às vezes a vida (2). Tudo isso pode levar o indivíduo a sintomas de depressão, desânimo, vontade de desistir.


Em Filipenses 4:8, Paulo nos chama a atenção em como administrar nossos pensamentos: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”.


Apesar do número de tiroteios em massa ter aumentados nos últimos anos, segundo as estatísticas do National Safety Council (2015) 1 em cada 11.125 pessoas morre em decorrência deste ato, comparado a morte por acidente de carro (1 em cada 108). A ansiedade ou medo deturpa esta estatística tornando o improvável em certeza.


É muito importante que estas informações mais realísticas sejam confrontadas com o medo e preocupação para que crianças e jovens não prejudiquem seu futuro, seus projetos, vida acadêmica ou social. Ao mesmo tempo, precisamos entender que existe a fase do luto numa situação aonde a tragédia acontece em nosso quintal, na nossa vizinhança.


O apoio, diálogo aberto, o carinho, a solidariedade dos pais são de extrema importância para que crianças e adolescentes sintam-se um ambiente seguro para compartilharem suas emoções. Palavras e gestos de compreensão, afirmação, o carinho e a presença física contribuem para que o processo de luto seja vivenciado de forma saudável.


Os pais também devem incentivar os filhos a prosseguirem com seus alvos, suas obrigações, se necessário levá-los à escola nas primeiras semanas até que a rotina tome conta de forma natural.


Por fim, se sintomas como falta ou excesso de apetite, insônia, tristeza excessiva, falta de motivação para estudar, ir à escola, sair com amigos, isolamento se tornarem constante por um período contínuo, recomenda-se aos pais que procurem ajuda profissional para que seja feita uma avaliação psicológica e um acompanhamento terapêutico.


Cada organismo opera de uma forma única e precisamos estar atentos à isso. Não minimize neste momento as expressões e reações apresentadas, de forma consistente e repetitiva em seus filhos. Precisamos ter a consciência de que, se necessário, uma ajuda externa irá contribuir para a redução dos sintomas de ansiedade, depressão ou estresse pós-trauma.


Vale a pena também participar de grupos de apoio oferecidos por organizações para que crianças, jovens e adultos tenham a oportunidade de compartilhar, ouvir e trocar experiências num ambiente seguro e acolhedor.


O exercício da fé e espiritualidade hoje é reconhecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como vitais aos processos de cura de doenças físicas e emocionais. Fé e esperança são ingredientes importantíssimos para a superação do medo e ansiedade, porque ao contrário destes últimos, a fé e a esperança criam uma expectativa positiva com relação ao futuro.




Sandra Freier – Pastoral Counseling / Registered Marriage and Family Therapist
(1) Jantz, Gregory, PH.D – The Fear Factor : Trauma and Anxiety- Christian Counseling Magazine Vol 21 # 04.
(2) Cury, Augusto. Ansiedade: Como enfrentar o mal do século. 2013. Editora Saraiva.