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Permissão para sofrer

Talvez pareça um tema negativo, mas este artigo é dedicado às mães que sofrem em silêncio em meio as propagandas, celebrações e manifestações do Dia das Mães, os quais simplesmente se resumem a uma mensagem: Este é o seu dia, seja feliz, celebre com seus filhos e etc….

E o que podemos dizer às mães que perderam seus filhos, às mães que foram rejeitadas pelos seus filhos e às mães cujos filhos estão desaparecidos? E às mães que abortaram seus bebês, seja natural ou seja provocado? E às mães do exército (Army Moms)?

Como elas se sentem nestas celebrações? No decorrer de nossas vidas passamos por perdas e ganhos. Perdas financeiras, trabalho, carro e casa, por exemplo, são processos temporais e que podem ser recuperáveis. Os mais desprendidos reagem com mais facilidades e os mais apegados aos bens materiais sofrem e tem sérias dificuldades em assimilar tais dificuldades.

Mas quando se trata da perda de um ente querido, mais precisamente um filho ou uma filha, a coisa muda de figura. No curso natural da vida o certo seria os filhos enterrarem seus pais, mas é inaceitável pais enterrarem seus filhos. A dor é imensurável e irreparável. No seu mais profundo significado, de acordo com Arnold e Gemma (1994), a ʺperda tem outros significados para além do fluxo natural da vida. Ela também significa ser roubada, despojada, desnudada. Sofrer perda muitas vezes significa se submeter a privação, a ser esgotado, separada, querendo o que perdeu e faltando o que se tinha. Perda pode significar não ter mais tempo, ter ido embora para sempre. A perda pode evocar sentimentos de terror (pag. 5)ʺ. O luto para muitos pode ser um processo contínuo e até mesmo nunca ser recuperado.

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A pergunta que fica é: o que podemos fazer com nossas perdas, o que fazer com os sentimentos? Neste século em que vivemos, embora aceite-se as manifestações dos sentimentos de perdas por um período determinado, geralmente eles são coagidos a serem expressados em particular, armazenados nas profundezas das nossas experiências. Na frieza e individualidade deste mundo, as pessoas que sofrem são isoladas ou evitadas.

A psiquiatra Elizabeth Kubler-Ross, dentro da abordagem da Terapia Cognitivo Comportamental descreveu cinco fases deste processo de luto (*): 1- Negação (nega a existência do problema, a perda ou situação ocorrida); 2 – Raiva (expressa-se a ira, ressentimento, geralmente culpando Deus ou outra pessoa como causadores do sofrimento); 3 – Negociação (acontece geralmente dentro do próprio indivíduo, às vezes voltada para a religiosidade, uma ocupação, um causa e etc.); 4– Depressão: (profundo sofrimento, desânimo, culpa, introspecção e necessidade de isolamento); 5 – Aceitação (as emoções já não estão mais à flor da pela e a pessoa está pronta para enfrentar a situação com consciência das suas possibilidades e limitações).

Este processo não é linear, pode-se superar ou voltar para alguma fase e não há um tempo específico para a transição entre as frases. O importante é que as pessoas ao redor do indivíduo enlutado devem respeitar cada fase, sem cobranças ou pressão.

Apoio de parentes, amigos mais chegados, entidades religiosas são significantes neste processo de luto. Quando se perde um filho, é necessário direção, assistência, ajuda até mesmo psicológica para desenvolver os mecanismos de defesa para enfrentar o amanhã. Há grupos de apoio que são benéficos e ajudam as pessoas a identificarem suas emoções, a expressar seus sentimentos de forma segura e ao mesmo tempo se sentirem validados e fortalecidos.

Trabalhar com famílias em luto é uma experiência muito especial. Nós nos aproximamos das pessoas na maior tragédia de suas vidas. Nós tratamos feridas que nunca serão totalmente curadas e que causam uma dor infindável. Entretanto, trabalhar com estas pessoas é um meio de expressar a nossa humanidade e nos faz compreender a nossa própria vulnerabilidade.

ʺA base para trabalhar com famílias enlutadas é o nosso carinho e atitude abertos e nosso desejo de ouvir, compreender, apreciar e aceitar sentimentos e experiências. Nenhuma pessoa está melhor preparado para lidar com famílias enlutadas do que outra. Dor e perda não são o foco de qualquer disciplina. Na verdade cada um de nós possui algo único para oferecer. Nós oferecemos a nós mesmos. O ato de cuidar, o compartilhamento da própria humanidade é que vai fazer a diferençaʺ. (Arnold e Gemma)

Se você conhece alguém que está passando por este processo não evite contato. Seja presente, ofereça a sua ajuda, o seu apoio e o seu ouvido. Refira para um grupo ou uma terapia se a pessoa se sentir debilitada no seu dia-a-dia. Mas faça isso com amor, sem julgamento ou opiniões formadas. Apenas vista o ʺsapato do seu próximoʺ e procure compreender a sua experiência de uma forma neutra.


Sandra Freier – Marriage and Family Therapist Intern
Referência:
http://www.griefshare.org/
http://www2.uol.com.br/vyaestelar/tcc_perda_luto.htm
Arnold, Joan & Gemma, Penelope (1994). A CHILD DIES. A Portrait of Family Grief. The Charles Press Publishers.