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Quando a criança precisa de ajuda profissional

É comum pais nos procurarem como terapeutas para atendermos seus filhos esperando que eles possam sentar numa poltrona confortável e falar sobre seus sentimentos e ouvir o que nós temos a dizer para que eles mudem o comportamento  conforme expectativas dos adultos, sejam pais, cuidadores ou professores.

Muitas vezes o desvio de comportamento referido pelos mesmos, valendo lembrar sobre o conceito e padrão de comportamento que esperamos destes pequeninos, é apenas uma manifestação de que algo não está bem. Além disso, a criança e o pré- adolescente são ainda seres dependentes e relacionais, os quais absorvem diversos fatores do ambientes em que vivem.

O desafio, dentro do estágio de desenvolvimento da criança, é que a criança ainda não é capaz de verbalizar em sua totalidade ou profundidade cenas que presencia, palavras negativas que lhe foram dirigidas ou outras situações de abuso físico, verbal e emocional,  manifestando suas emoções através de comportamentos “não desejáveis” ou sintomas psicossomáticos.

Assim como o adulto, crianças são seres complexos que sentem, sofrem, agem, reagem e, ao mesmo tempo,  possuem suas particularidades pois estão em um mundo cheio de estímulos e se encontram em pleno desenvolvimento biopsicossocial. A criança está em meio a uma rede de relações que desempenham importante papel na construção de sua personalidade e do seu crescimento como pessoa.(1)

Outro fato importante é que o temperamento de uma criança influencia o comportamento e atitude dos pais, assim como os pais influenciam seus filhos. É um caminho de duas vias. Portanto, os pais devem lembrar que a forma que eles lidam com um filho, mesmo que seja da melhor intenção, pode não funcionar com o outro filho, ou seja, para o melhor desenvolvimento da criança, os pais precisam ver a criança como indivíduos, com suas próprias características e temperamento.(2)

Desta forma é preocupante quando coloca-se certos chavões na criança, especialmente em nossa cultura brasileira, dizendo que esta criança é “difícil”, ou um “terror”, um “monstro”, o “capeta”, ”problema”, “burra”, “não vale nada”, entre outros estereótipos. Sem contar que que as palavras negativas tem um peso imensurável sobre os sentimentos e auto-estima de uma criança a qual necessita de vínculo de afeto para ter um desenvolvimento emocional saudável.

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A Terapia do Brinquedo é apenas uma modalidade da psicoterapia infantil, porém, com uma efetividade comprovada pelo fato de proporcionar à criança um ambiente o qual ela possa se identificar, sentir-se segura e validada, a fim de expressar-se sem reprovação ou ameaças e aprender a descobrir e lidar com suas próprias emoções.

Garry Landreth foi o Fundador do The Center for Play Therapy  (O Centro para Terapia do Brinquedo) na Universidade do Texas e estudou anos sobre o desenvolvimento emocional da criança e a eficácia da Terapia do Brinquedo. O mundo da criança é o mundo concreto e a brincadeiras ou o brinquedo é a expressão concreta da criança, a forma na qual a criança é capaz de assimilar e lidar com o mundo afora. (3)

A Terapia do Brinquedo: é um processo dinâmico inter-relacional  entre a criança (ou uma pessoa de qualquer idade) e o terapeuta com especialidade nesta modalidade, o qual proporciona um relacionamento seguro para a criança (ou uma pessoa de qualquer idade) através da escolha de materiais estratégicos e adequados, a fim de que ela possa se expressar de forma completa e explorar o seu eu (sentimentos, pensamentos, experiências e comportamentos), através das brincadeiras, o meio natural de comunicação da criança, para um crescimento e desenvolvimento adequado e saudável. (3.1)

Procurar ajuda de um facilitador não é sinal de fracasso na educação dos filhos, e sim, um cuidado com a saúde do pequeno que pede ajuda de forma não verbalizada, por isso os famosos distúrbios de comportamento. (1.1)

A psicoterapia infantil, e mais precisamente a Terapia do Brinquedo, entre outras modalidades, visa auxiliar a criança e os pais ou cuidadores quando a mesma apresentar sinais de que algo não está bem no seu desenvolvimento emocional ou social. Este é o momento em que a criança é acolhida, e ouvida sem retaliação, podendo expressar seu universo sem privações e aprendendo a comunicar seus sentimentos de forma saudável. Esta modalidade de terapia ajuda a criança a descobrir-se independente do diagnóstico que carrega, e assim, se auto afirmar sendo mais feliz e resiliente no presente e sofrendo menos consequências na fase adulta.



Sandra Freier – Registered Marriage and Family Therapist Intern
Mestrado em Aconselhamento Pastoral e Aconselhamento para Casais e Família.
Referências:

( 1) ( 1.1) Tunisia, Fabia, 2012. www.clinicaacolher.com
(2) Turecki, S.(1989). The Difficult Child. ( Traduzido)
(3) (3.1) Landreth, G. (2012). Play Therapy: The Art of the Relationship. (Traduzido)