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Quando pensamos qual a motivação que leva um casal a mudar para um país estrangeiro, abrindo mão da sua lingua materna, cultura, familia e profissão abrimos espaço para um grande debate. Com 20 anos de América, posso dizer, por experiência própria e com acompanhamento clínico de familias imigrantes, seja qual for a razão que leva um casal a tomar a decisão de mudar, a unidade e a forma como eles irão encarar os desafios farão toda a diferença.


São vários os fatores que levam um casal a imigrar para um outro país, entre eles: realizar um sonho de juventude; prosperidade financeira; segurança; melhor condições de vida e estudo para os filhos; uma nova chance para o relacionamento conjugal; oferta de trabalho ou transferência pela empresa que um dos cônjuges trabalha etc.

Tais são realmente convincentes e motivadores. O que a maioria dos casais não sabe ou não acredita que pode acontecer é o impacto que uma mudança provoca no relacionamento.

De acordo com uma pesquisa, nos últimos 10 anos, ʺa população imigrante brasileira continuou a crescer no início dos anos 2000 e depois se estabilizou por cerca de uma década. Entre 2014 e 2017, voltou a crescer, refletindo as difíceis condições do país, incluindo uma recessão de 2013 que foi acompanhada por alto desemprego e inflaçãoʺ(1) .

A mudança de país rompe os laços familiares. Para a cultura latina, isso acaba sendo um choque cultural. A família brasileira é muito achegada, mesclada, todos estão envolvidos, reunem—se em finais de semana, filhos ficam com os avós enquanto os pais trabalham e uns ajudam os outros. Um casal imigrante vive um isolamento nos primeiros meses até que se forme um ciclo social e mesmo assim enfrenta o desafio com relação a deixar os filhos no ʺextended dayʺ ou com ʺbaby sitterʺ, se ambos os pais trabalham. Geralmente os primeiros trabalhos conquistados são na área de construção e limpeza, os quais são dignos e com boa remuneração, mas o cansaço no físico final do dia tem um peso significante na vida do casal, principamente quando as tarefas de casa não são compartilhadas.


Se nos primeiros meses o casal percebe que não atingiu os objetivos determinados, especialmente na área financeira, e começa a passar por dificuldades a tendência é um dos cônjuges culpar o outro pela decisão da mudança e desejar retornar ao Brasil. Já atendi casos em que famílias precisaram morar em um quarto, como ʺroomatesʺ para diminuir as despesas, privando tanto o casal como os filhos de viver com liberdade e em um ambiente saudável.


Alguns cenários já vivenciados por exemplo, é o da família que muda com a intenção de realizar um investimento no país. Financeiramente estão bem, mas o marido precisa ficar parte do tempo no Brasil para manter seus negócios, ou o da mulher que abre mão do seu trabalho no Brasil para acompanhar o marido com a intenção de restaurar o relacionamento. E quando não há trabalho para o imigrante, principalmente para o homem ou se a remuneração ou posição profissional do homem é inferior ao da mulher? Ciúmes é gerado, bem como sentimento de inferioridade da parte do homem, além do empoderamento e controle da parte da mulher. Desdobramentos em função deste cenário podem ser observados, tais como consumo de álcool ou drogas como forma de escape ou fuga da realidade e até mesmo violência doméstica. Conflitos não resolvidos no Brasil são transferidos para o outro país e a probabilidade de resultar em um divóricio é grande, principalmente se a mulher consegue a sua independência financeira. Os conflitos precisam ser reconhecidos e tratados independente da mudança.


Cobrar ou culpar o cônjuge pela decisão em deixar uma profissão no Brasil não melhora a situação, ao contrário, é mais uma brasa acessa para incendiar a crise no casamento.


Neste quadro do casal que migra para os EUA, é importante levar em consideração dois aspectos:

1. Se o casal é jovem, sem filhos e quer realizar este sonho para construir um patrimônio para um futuro planejamento familiar, é importante estabelecer valores e princípio no relacionamento conjugal; fazer um planejamento com metas realistas e datas a serem cumpridas. Se há alguma área de conflito no relacionamento conjugal, não ʺacumular a sujeira debaixo do tapeteʺ, achando que poderá sacudi-la em peno vôo para os EUA. Trabalhe os pontos fracos do relacionamento; priorizar um ao outro e certificar que ambos estão confortáveis com as decisões tomadas. Na chegada ao país, o casal precisa estar unido, sem deixar dominar-se pelo encanto da conquista material e nem dar passos em falso adquirindo dívidas; relacionar-se com casais brasileiros para minimizar o distanciamenteo e saudades, e buscar grupos de apoio. É muito comum igrejas imigrantes serem referências e apoio emocional para as famílias. Há uma grande chance e probabilidade de casais jovens serem bem sucedidos quando fortalecem seus vínculos, respeitam um ao outro e aprendem a delimitar o tempo de trabalho , bem como trabalharem juntos os alvos financeiros. Transparência na comunicação, tempo para lazer e o cuidado pessoal são fatores chaves para o sucesso nesta decisão.

2. Se o casal já vem migrar com filhos, a atenção e planejamento devem ser redobrados, assim como uma reserva financeira. As crianças se tornam vítimas e vulneráveis quando vivenciam os conflitos gerados pela mudança mal planejada. Filhos não seguram casamento. Podem prolongar a crise no relacionamento mas sofrem as consequência por viverem numa estrutura disfuncional. Se um dos motivos principais do casal em mudar para os EUA é oferecer melhores condições de vida aos filhos, isso inclui qualidade de tempo na família, a qual, na maioria das vezes é ignorada. Filhos não são comprados com video games, Iphones ou Ipads. Filhos precisam da presença dos pais, do acompanhamento na escola, do afeto e de um ambiente saudável no lar. Lembrem-se que os filhos não pediram para mudar, eles também precisam de adaptação, sentem falta dos avós e da família no Brasil. É preciso planejar bem, considerar todos os desafios e saber administrar o tempo de trabalho com da familia.


Sim, este é um país de oportunidades, ainda que nos últimos anos, a política tem se estremecido, a pandemia mudou a realidade do mundo, mas como diz o sábio ditado, a oportunidade a gente é quem faz.


Há algumas regras de outro para o casamento, independente da mudança de país: nutrir o amor e a admiração um pelo outro; estar voltado um para o outro ao invés de dar as costas; aceitar e respeitar a opinião do cônjuge; resolver os problemas que tem solução e superar os impasses; criar significado na vida em comum ( John Gottman) (2)


Atitudes contrárias como a reclamação contínua, negatividade, críticas, discussões infindáveis que só aumentam a tensão, a perseguição e distanciamento são agentes nocivos ao casamento cujo estrago pode ser irreparável.


O casal deve pensar que a família é o maior patrimônio que se deve preservar na América. Não há preço, nem conquista material que possa substitui-la, mas, como toda sociedade, o casamento depende de ambas as partes para que seja bem sucedido e para que os obstáculos sejam vencidos.


Hoje em dia a ajuda profissional na língua portuguesa para casais e familias imigrantes está mais acessível. O importante é dar o primeiro passo.



Sandra Freier –LICENSED MARRIAGE AND FAMILY THERAPIST – MFT 3940
Entre em contato:
bridgestls.contact@gmail.com
Instagram: @bridges2world 

(1) Brittany Blizzard and Jeanne Batalova www.migrationpolicy.com
(2) Gottman, John. The Seven Principles for Making Marriage Work

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Você já parou para pensar se é uma pessoa que assume uma responsabilidade social, seja como cidadã ou como empresária? O que significa para você ser ʺresponsável socialmenteʺ?
Quando você realiza uma ação social ou de caridade, você realmente veste a camisa desta causa? Ou você faz esporadicamente , tira uma foto e compartilha em suas redes sociais para mostrar a sua ʺboa-ação”? A sua empresa deixa para contribuir financeiramente com alguma entidade sem fins lucrativos no final do ano para reduzir uma porcentagem do montante de impostos que deverá pagar ao governo, ou assume com assiduidade um projeto que beneficia aqueles menos privilegiados ?

Este artigo tem como objetivo levá-lo a a uma reflexão a respeito da sua atuação e consciência quanto a necessidade alheia.

Há várias definições a respeito de responsabilidade social, mas resumindo-a numa expressão simples e objetiva, extraída da revista “Family Therapy” é aquela que propõe ao indivíduo, empresas ou organizações o compromisso de agir em benefício à sociedade em geral. (1)

Uma definição genérica, formal e teórica, a qual eu traduziria como uma ʺconsciência individual e corporativa em favor da necessidade do próximo através de ações de impacto ao menos favorecido, ou a uma comunidade carenteʺ. É muito mais do que agir por obrigação, é agir com empatia. A primeira avaliação que você deveria fazer é: quando um “homeless” ou uma criança pede um dinheiro no sinal e você resolve dar, você faz isso por desencargo de consciência ou porque realmente imagina como deve ser a vida daquele andarilho ou da criança, e sente-se profundamente solidário à situação destes? A questão aqui não é se deve ou não dar um trocado e sim, quando você dá, qual a verdadeira razão para tal ato.

A responsabilidade social também nos ajuda a ampliar nossa visão e compreensão a respeito de da realidade de diferentes comunidades e culturas. Uma ação consciente move uma pessoa ou uma empresa a explorar diferentes formas e oportunidades para agir com responsabilidade, pois há uma compreensão genuína das necessidades materiais, emocionais e físicas de outras pessoas. Em resumo : para agir com responsabilidade social é necessário tomar uma decisão consciente.

Algumas sugestões que pode ajudá-lo a iniciar uma ação referente a sua responsabilidade social. Primeiramente é estabelecer alguns limites e focar em determinados alvos. O que significa isso? Você não tem que dizer sim a todas as ligações que recebe de entidades ou pessoas que o abordam solicitando ajuda. Ao contrário: é importante que você se identifique com um projeto ou programa, seja ele algo que com a sua experiência profissional você acha que poderá contribuir de forma mais efetiva; uma causa na qual você tenha vivenciado pessoalmente, ou ainda um projeto que tenha despertado seu interesse ou sua compaixão e que não conhece muito a respeito, mas tem interesse em conhecer e se aprofundar.

Enfim, tudo é uma questão de iniciativa e atitude. São incontáveis as necessidades que existem tanto em sua comunidade local como ao redor do mundo. Não tem como dizer eu não vou fazer porque já tem gente ajudando. Isso não existe. Isso se chama zona de conforto, pois ajudar uma causa envolve uma predisposição financeira, ação, trabalho voluntário, sacrifício e nem todo mundo quer pagar o preço.

As cinco necessidades básicas do ser humano, segundo Abraham Maslow são: fisiológica, segurança, amor/relacionamento, estima e realização pessoal (2). Eu diria que a última, realização pessoal, é aonde se encaixa a repsonsabilidade social. Por experiência clínica, eu posso afirmar que atendi muitas pessoas realizadas profissionalmente, seguras financeiramente, mas sofrem de depressão , ansiedade e sentem um vazio . Quando eram abordadas se elas tinham algum envolvimento com uma causa social, ou realizavam algum trabalho voluntário a resposta era não. Compreenda que isso não é regra, mas a ação social que envolve a empatia, contribui com a auto-realização e auto-estima de quem ajuda, sem contar que a sua contribuição beneficia as pessoas menos favorecidas.

Procure saber quais são as necessidades da sua comunidade local. Veja se você ou a sua empresa podem atender algumas destas necessidades e de que forma faria isso. Se você é movido por uma causa humanitária, pesquise as ONG’s que atendem a população ou causa específica pela qual você se identificou. Conheça a fundo os projetos as respectivas atuações. À partir daí tome sua decisão, mas tome com compromisso e consistência. Lembre-se que quando assumiu este compromisso, tais vidas serão beneficiadas e, se faltar ou romper, elas podem ser prejudicadas.

Lembre-se também de que, se for divulgar aquilo que faz, faça para incentivar as pessoas a tomarem esta iniciativa ou despertá-la à consciência sobre a responsabilidade social. Você não precisa de confetes para ajudar o próximo. O resultado disso tudo é imensurável pois o que vale é saber que você pode fazer a diferença na vida, seja de uma pessoa, uma criança, uma família ou uma comunidade. Experimente.

Precisa de ajuda nesta área?

Entre em contato: contact@bridgestotheworld.us

Sandra Freier – Pastoral Counseling / Registered Marriage and Family Therapist

(1) Revista Family Therapy – Julho/Agosto 2014 ( AAMFT)
(2) https://www.psiconlinews.com/2015/11/piramide-de-maslow-hierarquia-das-necessidades-humanas.html

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